Nosso futebol

Fred, do Shakhtar: "O Brasil tem os seus problemas, mas nada se compara a uma guerra"

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Conversei com Fred, estrela do Shakhtar Donetsk, para tentar entender como é a vida de um jogador que mora num país em guerra. A entrevista foi publicada em espanhol na edição impressa do AS na quarta-feira 15 de fevereiro, mas abaixo você pode ler na íntegra esse bate-papo em português.

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Meu ídolo, Deva Pascovicci

Não conhecia o Deva Pascovicci.

Mas o Deva era meu ídolo. Era quem eu sempre quis ser profissionalmente.

Desde criancinha eu sempre quis ser narrador esportivo. Minha mãe guarda até hoje as fitas cassetes que eu gravava escondido quando pirralho.

Primeiro foi Osmar Santos. Ficava louco com ele. Me fascinava aquela voz que sorria, que ecoava nos quatro cantos de onde aquele rádio estivesse.

Mas daí eu cresci e um dia escutei um trovão. Um estrondo, que chegava a fazer tremer o rádio, reverberando como um terremoto em conjunto com a explosão da arquibancada.

Quem é esse cara? De onde ele surgiu?

O tenor da CBN. O Pavarotti, como o amigo Paulo Massini gostava de apresentá-lo antes das transmissões.

Um narrador com poucos chavões. Que era puro improviso. Que vibrava com cada gol de maneira diferente, conforme a emoção daquele momento lhe tocasse. Não havia dois gols iguais.

Conheço, admiro e sou amigo de muitos narradores. Mas existía algo na voz e na maneira do Deva narrar que me estremecia. Que me fazia voltar a ser criança. A sonhar com a cabine. Eu queria ser o Deva Pascovicci.

Porém ele sempre foi um personagem que eu acompanhei de longe. Ele morava e trabalhava em São Paulo, eu no Rio e depois saí do Brasil. E essa distância só fez aumentar essa imagem do super-homem (ou super-narrador) que eu tinha.

Até que ele começou a fazer dupla com o Mário Marra como comentarista.

Eu ligava pro Marra sempre que podia e inevitavelmente acabava perguntando do Deva. E o amigo sempre, pacientemente, me contava alguma história para alimentar minha fantasia de tiete.

De longe, escutava a CBN pela internet. A campanha do Corinthians na Libertadores e no Mundial, narrada por ele, é pra fazer até palmeirense chorar.

Aí veio o câncer. E segui a doença e sofrimento também através dos amigos em comum. Torcendo para que o Deva saísse dessa.

E ele saiu. Venceu. Fez uma Copa do Mundo maravilhosa. Mesmo tendo passado pelo suplício de narrar o 7 a 1.

Ouvi TODOS os jogos que ele narrou. E no fim das transmissões sempre ligava pro Marra.

Combinamos de tentar nos encontrar, conhecer o ídolo. Mas nunca conseguimos coincidir. A Copa acabou, eu voltei para Espanha, ele saiu da CBN. E esse encontro nunca aconteceu.

Nesta terça eu voltei a ligar pro Mario Marra. Um dos poucos momentos que me levantei durante um dos piores dias que lembro ter pasado dentro de uma redação.

O Deva foi um dos pais, amigos, filhos, irmãos, maridos, exemplos, mentores, ídolos, que foram vítimas de uma tragédia que abalou o Brasil. O mundo.

Ao sair do jornal, aqui na Espanha, fui correndo buscar as crianças no colégio... Dei um abraço apertado nos dois, chorando copiosamente.

Um dia doído que serve pra te lembrar de abraçar quem você ama sempre que puder.

Bem apertado.

Olhar nos olhos e dar de um beijo. Dizer o que sente.

Não deixar pra amanhã aquele papo, aquela matada de saudade.

Porque tudo pode mudar num piscar de olhos.

 

Capita eterno!

Com a avalanche de notícias, perfis e depoimentos de exjogadores, amigos e ídolos do esporte sobre o "capita" Carlos Alberto Torres, decidi postar aqui uma história curta que resume bem quem era o homem por tras da lenda.

O causo é do amigo Thiago Arantes, jornalista brasileiro que trabalhou anos na Folha, Estadão e ESPN e hoje está radicado em Barcelona, onde trabalha pro canal Bein Sports.

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"Agosto de 2011.

Aproveito uma viagem de trabalho ao Rio para marcar uma entrevista com Carlos Alberto Torres, um dos capítulos de "Os dez mais do Santos", que eu lançaria no ano seguinte.

O taxista se perde e não acha a casa do Capita, em um condomínio da Barra da Tijuca. Penso em desistir, em voltar para o hotel. Antes, ligo para Carlos Alberto, para me desculpar.

"Desce deste táxi agora e me fala onde você está, vou te buscar".

Carlos Alberto Torres saiu de sua casa pra ajudar um jornalista perdido que ele nem conhecia. Depois, passamos num shopping para ele pegar um vestido da esposa em uma lavanderia.

Na varanda de sua casa, duas horas de conversa. A pilha do gravador acabou. A entrevista só não foi mais longe porque EU precisei ir embora.

O homem que deu a pincelada final na maior obra do futebol-arte, que encerrou a jogada mais importante da história do maior esporte do mundo, foi o atleta mais humilde e boa gente que conheci no jornalismo."

No Neymar, no problema

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A seleção brasileira continua 100% sob o comando do Tite.

Não foi uma vitória brilhante contra a Venezuela, mas foi conseguida sem dificuldades contra um rival que, apesar de estar na lanterna das eliminatórias, deu um baita sufoco no primeiro tempo contra o Uruguay em Montevideo e empatou em casa com a Argentina no partido anterior. A Vinotinto continua sendo um time frágil, mas vem melhorando com Rafael Dudamel.

Por isso a relativa tranquilidade com que a seleção brasileira ganhou ontem, mesmo sem o Neymar, mostram que o trabalho do Tite é realmente fora de série até o momento.

Principalmente no aspecto coletivo e mental. O Brasil volta a jogar sem sentir a responsabilidade de ganhar. A superiodade é algo que deve ser encarada com naturalidade para os jogadores de uma seleção que ganhou cinco Copas do Mundo e nunca ficou fora de uma delas. Salvo um jogo na altitude ou outro, o Brasil não deveria sentir nenhum tipo de pressão ou nervosismo ao fazer o dever de casa contra os time pequenos da América do Sul. Mas isso tampouco significa salto alto. É entrar em campo com seriedade e com a consciência do trabalho que tem que ser feito.

Foi o que vimos nesses dois jogos, contra Bolívia e Venezuela. Um time profissional, preparado, maduro. Que sabia exatamente o que tinha que fazer e de que maneira.

Mérito do treinador que soube transmitir sua idéia e dos jogadores que a executaram.

A seleção voltou a ser interessante. Voltou a despertar a paixão, sorriso e esperança no torcedor brasileiro, que volta a se identificar com a mística camisa amarelinha.

Não vejo a hora de 10 de novembro chegar. Brasil e Argentina no Mineirão. Palco perfeito e rival perfeito para fazer as pases com a torcida que foi testemunha ocular do 7 a 1.

Tite devolveu a autoridade à seleção brasileira

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Nos últimos anos a seleção brasileira começou a viver uma situação totalmente nova no confrontos contra rivais sul-americanos: passou a tomar sufoco.

Sabe aquela história de que "já não existe time bobo" ou "o futebol está cada vez mais igualado"? Isso chegou a ser a desculpa dada pelos treinadores medíocres e desatualizados para justificar sua incapacidade de fazer o dever de casa de qualquer time grande, que é vencer rivais inferiores.

Teve gente que chegou a questionar a qualidade da atual geração, dizendo que estávamos com escassez de talento. Mesmo com dezenas de jogadores brilhando nos principais clubes da Europa em praticamente todas as posições e com uma genial leva de novos talentos, principalmente centroavantes.

Dunga deixou o Brasil fora da zona de classificação para a Copa da Rússia e conseguiu ser eliminado de maneira precoce de duas Copas América, uma competição que historicamente nem levávamos nossos melhores jogadores.

A seleção brasileira virou motivo de piada, foi humilhada numa semifinal de Copa do Mundo e quase convenceu a si mesma, com esse mantra tóxico e autodestrutivo, de que era um time qualquer.

Sorte nossa que existe Tite, um dos poucos treinadores brasileiros com bom senso além de competência.

Em três meses no comando da seleção, o técnico trouxe de volta a alegria e o gosto de ver a amarelinha jogando. E, mais importante, devolveu a autoridade a um time que insistia em se amiudar. Em negar sua grandeza. Sua mística, adquirida com décadas de futebol bem jogado e cinco títulos mundiais.

Entendo o Tostão quando ele diz estar preocupado que esse "oba-oba em torno do Tite". Mas acho inevitável, porque muitos de nós já tínhamos perdido a esperança na seleção, comandada por uma CBF corrupta e incompetente.

A vitória de ontem contra a Bolívia foi como nos velhos tempos. Sem sustos e como time grande. Como nunca deveria ter deixado de ser.

"Fui a Milão para ganhar um título e voltei com uma nova paixão"

O texto abaixo é um depoimento do amigo Rodrigo Octávio Leme, publicitário paulista que mora em Madrid e foi a Milão ver a final da Champions League entre Real Madrid e Atlético. Rodrigo conta como viajou à Italia com uma enorme dúvida e voltou com certeza ainda maior.

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Fui a Milão para ganhar um título e voltei com uma nova paixão

Por Rodrigo Octávio Leme

Quando cheguei para morar em Madrid, três anos atrás, sabia que uma das coisas que sentiria falta era do meu Corinthians.

Mas tudo bem, essa falta poderia ser amenizada por estar na cidade do maior clube de futebol da história e com certeza eu viveria o esporte de outra maneira.

Mais do que ir a jogos, eu estudei no Real Madrid por um ano onde aprendi a admirar e entender porque o clube atingiu esse status. Mas admirar é uma coisa, torcer é outra. E isso se dá por um motivo simples: a admiração você controla pela razão, já a torcida pela emoção, ou seja, não tem controle algum.

Fato é que nesses três anos fui a muitos jogos no Santiago Bernabéu e torci de verdade pelo Real.

Cantei, gritei, vibrei e incentivei a equipe da forma mais genuína possível.

Por outro lado, também comecei a frequentar o Vicente Calderón e também torcia pelo Atlético, um clube que tem uma natural simpatia a todos que os conhecem.

Quis o destino que a final da Champions League colocasse os dois times frente a frente pela segunda vez em 3 anos.

Em 2014 estava viajando e confesso que não me envolvi tanto, mas esse ano fui sorteado pela UEFA em fevereiro e me programei para ir a Milão ver a final.

Até então não sabia quais clubes se classificariam e, quando isso ficou definido, veio aquela dúvida: e agora, para quem torcer?

Fiquei me perguntando isso nos últimos 15 dias.

E decidi que não escolheria antes, deixaria o ambiente me escolher.

Coloquei uma camisa de cada time na mala e fui pra Milão.

Inclusive brincava com os amigos: não há chances de eu não sair campeão (rs).

Peguei um voo no próprio dia do jogo pela manhã. O aeroporto de Madrid, como não poderia ser diferente, parecia um estádio de futebol. Torcedores se espalhavam entre os voos que saiam a Milão a cada 10 minutos.

Meu avião era predominante de colchoneros, mas os madridistas que se juntaram no fundo do avião vaziam bastante barulho.

Duas horas de festa e cantos de gritos de guerra.

Talvez esse tenha sido o primeiro sinal de quem eu iria torcer: enquanto os atleticanos espanhóis cantavam o hino e músicas unicamente de incentivo ao clube, os merengues sempre soltavam cânticos debochando do clube adversário.

Achei um pouco desnecessário, mas tudo bem. Isso faz parte do futebol.

Já em Milão antes do jogo fui encontrar meus amigos madridistas na Fan Zone do Real Madrid.

Um clima de festa e euforia pela eminência do 11º título europeu e a consolidação como reis da Europa.

No momento lembrei das minhas experiências seguindo o Corinthians, esse sim o único clube de futebol pelo qual sofro, achei curioso que a tensão não passava perto dos torcedores.

A postura dos torcedores brancos em Milão beirava uma soberba, a meu ver, perigosa.

Enfim, fomos ao estádio juntos e lá nos separamos porque meus assentos eram no setor neutro, enquanto cada torcida ficava atrás de um gol.

Meia hora antes da partida um animador da UEFA com seu microfone dirigiu-se a cada uma das torcidas para cantar seus gritos de guerra.

Veio aí o segundo sinal de quem meu coração defenderia naquela tarde.

Começaram com a torcida do Real que cantou sua famosa “Como no te voy a querer. Si fuiste campeón de europa por décima vez”.

Já tinha ouvido essa música milhões de vezes, mas foi naquele momento em que realmente me atentei a seu real significado.

O que eles querem dizer com isso?

Que só amam seu clube porque ele foi campeão da Europa por 10 vezes?

E se não tivesse sido, a torcida não o apoiaria?

Já os colchoneros cantaram o seu “Hoy viajamos juntos otra vez. Enamorados del Atleti. No lo puedes entender”.

Para mim isso é a essência de um torcedor de futebol, estar com seu time sempre, apaixonado, independente do que venha a acontecer.

E que os outros não poderão entender essa paixão.

Começou o jogo e não precisa contar o que aconteceu em campo.

Para mim ficou claro que realmente o medo de perder tira a vontade de ganhar.

Independente dos erros do Simeone (afinal começar com Augusto no lugar de Carrasco já não havia funcionado contra o Bayern e a demora em colocar fôlego novo durante a prorrogação é inexplicável), dos favorecimentos de arbitragem (não digo pelo gol impedido, mas sim a falta do Sérgio Ramos em que até sua família lhe daria um cartão vermelho) e fatalidades de jogo (como o pênalti perdido por Griezmann), o resumo é que Atlético teve futebol, mas não coragem de ganhar.

Chega até ser uma ironia que o time de Simeone não teve HUEVOS para ser campeão.

Mas para mim o último grande momento e a síntese do que vivi no final de semana aconteceu quando terminou a prorrogação e nos preparávamos para os pênaltis.

A torcida do Real Madrid voltou a cantar sua famosa “Como no te voy a querer”, mas dessa vez já trocando Décima vez por UnDécima.

No outro lado, atrás do gol oposto de onde foram as cobranças, a torcida atleticana cantava “orgullosos, de nuestros jugadores.”

Percebi ali que eu não fui a Milão para ganhar um título.

Eu fui para ganhar uma nova paixão.

¡Aúpa Atleti!

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Duvidar do Zidane, nunca mais

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Dia 7 de maio de 2006.

Um dos momentos mais bonitos e emocionantes que viví em um estádio de futebol.

Zidane deixa chorando o gramado do Santiago Bernabéu. 

Junto com ele, milhares choraram(os) com ele.

O maior aplauso que já vi.

Arrepia só de lembrar.

Não foram lágrimas de raiva, como as que veríamos umas semanas depois na final da Copa da Alemanha.

Era sua despedida do Real Madrid.

Era difícil de imaginar que ele poderia fazer mais pro Real Madrid do que fez como jogador.

Principalmente quando ele foi anunciado como treinador de um time em crise, no meio da temporada, tendo fracassado como treinador das divisões de base do clube.

Zidane não conseguiu tirar o  Real Madrid Castilla da 3ª divisão e deixou o time na segunda posição do grupo pra dar o enorme passo de gestionar o vestiário cheio de estrelas do time principal.

A aposta de Florentino Pérez foi amplamente criticada. Chamada de populista. Uma manobra pra tirar a atenção da crise e das críticas contra o presidente, que tinha decidido demitir o vitorioso Carlo Ancelotti na temporada anterior.

O Real Madrid ia mal das pernas enquanto o Barcelona voava, parecendo um ano mais imbatível.

Hoje, menos de seis meses depois, ele se consagra como campeão da Europa.

E se engana que seu papel foi apenas levar tranquilidade a um vestiário onde o ar era irrespirável, que se rebelou contra o antigo treinador, Rafa Benítez.

Zidane deu sim ânimo novo e confiança aos jogadores, mas foram três decisões táticas que fizeram a grande diferença dentro de campo.

A primeira foi devolver Cristiano Ronaldo à sua posição original, onde ele gosta de jogar, com liberdade vindo da ponta esquerda. Benítez insistia em colocar o português de atacante, com a missão de dar mais protagonismo à Bale.

A segunda manobra de Zidane foi a aposta por Casemiro na cabeça de área. Benítez não teve a ousadia de sentar à estrela colombiana James Rodríguez e isso custou uma goleada histórica contra o grande rival, Barcelona, em pleno Santiago Bernabéu (0-4).

Casemiro deu a solidez que esse time precisava pra poder atacar com Modric e Kroos de armadores e Cristiano Ronaldo e Bale pelas pontas.

E achou seu 12º jogador num garoto que veio da base, Lucas Vázquez, uma pérola que ganhou, com justiça, um lugar na seleção espanhola que vai à Eurocopa esse ano.

Na noite de hoje, em Milão, Casemiro foi o melhor em campo. E Lucas Vázquez foi o que manteve o Real Madrid na luta na prorrogação, quando metade de seus companheiros estava acabada fisicamente.

O pênalti perdido por Griezmann será lembrado como o momento mais marcante dessa final. Mas foi a ousadia inicial do francês que fez a diferença no primeiro tempo, que saiu pro jogo atacando contra um Atlético que optou por uma escalação inicial conservadora, com o meia defensivo Augusto em vez do jovem talento belga Carrasco, que mudou a partida no segundo tempo.

Ninguém sabe se o Zidane conseguirá manter esse trabalho numa temporada completa.

Mas depois do que ele fez em apenas 5 meses, é difícil não acreditar.

Não precisa ser do contra pra apostar no Atlético de Madrid

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Real Madrid ou Atlético? Quem é favorito?

Esse é o debate monotemático que se repete em todos canais, rádios, sites e jornais desde o começo dessa semana aqui em Madri. Como diz o ditado espanhol, "chega o Natal, mas não chega o dia da final".

A tensão e ansiedade que se respira são brutais, mas me surpreende como tais discussões sobre o jogaço de sábado não conseguem ir além de uma gritaria de botequim entre torcedores de um time ou outro.

Se você acha que o Atlético de Madrid vai ganhar, é porque você é anti-madridista, torcedor do Barcelona ou colchonero.

E "o motivo" pra apostar pelo Real Madrid sábado é porque "é o Real Madrid e o Real Madrid sempre é favorito na Champions".

Nunca neguei minha simpatia pelo Atlético, mas sou gringo e venho de uma cultura americana onde o jornalista aprende a separar o lado torcedor do profissional.

Faz parte da cultura espanhola essa figura do jornalista torcedor, que fica gritando contra o outro num programa de TV de enorme audiência.

Eu entendo, mas sinto falta de um debate mais profundo sobre um jogo que, em campo, promete ser um confronto de titãs, fascinante, com tantas facetas e possibilidades que vão muito além do tal peso da camisa branca ou espírito da vingança simeônico.

Pra mim, o que faz o Real Madrid favorito é o caminho tranquilo que teve que percorrer para chegar na final.

Depois do péssimo ambiente no vestiário e a tensão que existia entre jogadores e treinador na primeira metade da temporada, sob o comando de Rafa Benítez, Zidane soube tranquilizar os jogadores, administrou os egos e deu a liberdade que esse plantel precisava pra voltar a se divertir jogando bola.

E é inegável a importante que o calendário fácil teve nessa tarefa. Os sorteios de oitavas, quartas e semifinal da Champions deu à Zidane uma espécie de segunda pré-temporada pra preparar o time para o grande compromisso.

Até o jogo contra o Barcelona foi diferente, com pouca intensidade, coincidindo com o péssimo momento que os rivais passaram perdendo cinco jogos seguidos.

Por isso se vê um clima tão leve e confiante em todas as entrevistas e declarações dos jogadores do Real Madrid esta semana. Depois do começo de temporada horrível, chegar à final da Champions é quase inacreditável. O time chega inteiro, bem fisicamente e com pouquíssima pressão.

Claro que influencia a tradição do Real Madrid, ganhador de 10 das 13 finais de Champions que disputou. Que venceu as quatro finais que disputou nos últimos 18 anos. E que ganhou o mesmo confronto com o rival dois anos atrás. Mas esse time é inferior ao da final de dois anos, tem um treinador que não tem nem 1/10 da experiência de Carlo Ancelotti e, contra um mestre estrategista como Simeone, Zidane por ficar exposto num hipotético momento de inferioridade.

Do lado do Atlético, o faz favorito ter vencido os que são, provavelmente, os dois melhores times da temporada: Barça e Bayern.

Tem a melhor defesa da Europa e um sistema tático impenetrável, infalível, feito para jogar contra times superiores e em confrontos eliminatórios.

Além disso, diferente de dois anos atrás, esse time chega no auge da forma física, sem jogadores machucados. Em Lisboa, Simeone não tinha suas duas melhores armas ofensivas, Arda Turan e Diego Costa. Aquele time chegou à final esmerilhado, esgotado. Dominou a final até os 30 minutos do segundo tempo, quando morreu e, sem opções no banco, sucumbiu pelo cansaço.

Esse plantel também é melhor do que o de 2014. Jogadores como Carrasco, Savic, Correa e Vietto podem ser as opções de mudança e sangue novo que faltaram naquele segundo tempo.

Se o Real Madrid tem mais talento individual, o Atlético tem melhor sistema tático, mais avançado e disciplinado.

Mas uma característica faz ambas as equipes serem muito parecidos em jogos importantes: sua preferência por deixar o rival jogar e sair em velocidade no contra-ataque, aproveitando os erros do adversário.

Por isso eu espero um jogo à italiana no San Siro. Dois times fechados, esperando com paciência o oponente dar o primeiro golpe.

Um jogo que será decidido pela mínima diferença. Um gol vindo de um erro, uma brecha, um deslize.

A grande dúvida que tenho é sobre o que aconteceria se Zidane fosse obrigado a sair pro jogo, se expondo ao contra-ataque mortal do Atlético. O Atlético sabe atacar sem se expor. Fez isso contra o Bayern e contra o Barcelona, dentro do Camp Nou. O Real Madrid corre muito perigo se tem que atacar, já que perde a solidez de Casemiro e conta com a fragilidade de Marcelo e Carvajal/Danilo na cobertura.

Por isso eu aposto no Atlético. Não tem nada a ver com torcida, paixão, mística ou merecimento.

O Atlético é melhor que há dois anos. O Real Madrid, não. E se há dois anos o time de Simeone teve a mão na taça até os descontos do segundo tempo. Dessa vez, parece difícil vê-lo deixá-la escapar.

E você? Quem acha que vai ganhar e por quê?

O segredo do Sevilla é não querer dar um passo maior que a perna

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O Sevilla atropelou o Liverpool na final da Europa League (3 a 1) e conquistou o quinto título da competição - terceiro seguido - em dez anos.

Um domínio impressionante da competição que deveria ser a mais equilibrada e democrática do continente.

Em uma liga como a Espanhola, onde é praticamente impossível desafiar os gigantes Real Madrid e Barcelona, o Sevilla decidiu investir no que podia.

Competições de tiro curto. Mata-mata. Onde o caminho para a glória é mais curto.

E a fórmula é muito parecida ao outro time médio espanhol que vem dando o que falar, o Atlético de Madrid.

Comprar na baixa e vender na alta. Não investir em grandes - e caras - estrelas e dar preferência a jogadores em ascensão em clubes menores, alguns veteranos desvalorizados e garotos vindos da divisão de base.

Dani Alves, Fazio, Martin Cáceres, Adriano, Rakitic, Júlio Baptista, Keita, Poulsen, Luís Fabiano, Bacca, Aleix Vidal.

Todos comprados por menos de 28 milhões de euros e vendidos, depois, por 190 milhões €. 

Gameiro, N'Zonzi, Benega, Krychowiak, Coke, Mariano, Tremoulinas, Vitolo, Rami, Escudero, Krohn-Dehli, Konoplyanka... Só os dois primeiros custaram mais de 5 milhões de euros. E os dois últimos, chegaram com passe livre.

Isso sem falar de Sergio Ramos, Jesús Navas, Alberto Moreno, Luis Alberto... pratas da casa que deram aos cofres do clube mais de 100 milhões de euros.

Uma ideia clara executada à perfeição e posta em prática em campo com um treinador diferenciado.

Não é exagero chamar Unai Emery de gênio.

Não é à toa que Ibrahimovic votou nele como melhor técnico do mundo, nas últimas eleições da Bola de Ouro da FIFA.

A obsessão do basco pela preparação tática, treinamentos extenuantes e horas metido numa sala escura estudando vídeos de seus rivais já é folclórica por aqui.

Seu nome é um dos mais cotados para substituir Vicente Del Bosque na seleção espanhola, mas muita gente acha que seu estilo de trabalho não combina com seleção pela ênfase que ele coloca nos projetos em longo prazo.

O Sevilla não quer dar um passo maior do que as pernas. Sabe que não pode competir - ainda - em uma temporada longa com seus rivais de cima. Encontrou seu nicho na Europa League e se especializou nele.

Jogar no Sevilla é símbolo de status, interessa a um jogador em ascensão. Pela gestão esportiva e econômica exemplar, pelo ambiente que se respira no clube, uma torcida apaixonada e a qualidade de vida de uma das cidades mais bonitas e com melhor clima da Europa.

Se o Sevilla vai conseguir dar o próximo passo e competir de igual pra igual com o Real e Barça, como o Atlético fez, isso já veremos. 

Mas, cá entre nós, nem precisa.

Simeone e o Atleti: feitos um para o outro

Simeone-jugadorQuando Diego Pablo Simeone deixou o Atlético de Madrid pela segunda vez como jogador, voltou à Argentina chorando. Para amigos e familiares, ele dizia que um dia ia voltar. Voltar ao clube onde ele dizia ter deixado um pedaço do coração.

Não sei se ele imaginava que, dez anos depois, sua volta significaria uma mudança histórica no Atlético. No futebol espanhol. E, se ganhar a Champions League no próximo dia 28, ele pode mudar também o futebol europeu.

Antes da chegada do treinador argentino, classificar-se para a prestigiosa liga europeia já era motivo de festa. Perder era parte do cotidiano e aceitado como algo normal. Tão normal que não é exagero dizer que, contra o maior rival, Real Madrid, o time já entrava em campo derrotado.

Menos de cinco anos depois um time em situação crítica, ameaçado pelo rebaixamento na temporada 2011/12, Simeone venceu uma Liga, uma Copa, duas Supercopas (uma da UEFA e outra da Espanha), chegou a duas finais de Champions e acabou com o jejum de 14 anos sem vencer o Real Madrid. Tabu que caiu em pleno Santiago Bernabéu numa final de Copa del Rey.

Ex-jogador e ídolo do Atlético, Simeone sabia que seu trabalho não era apenas tático e tinha um componente psicológico enorme. Ele precisava mudar a mentalidade perdedora do clube, o complexo de coitadinho. E essa vitória contra o grande rival em 2013 teve um efeito catártico. Do dia para a noite, o Atlético superou todos os traumas e passou a aceitar o triunfo como algo esperado. Do conformismo com a derrota esse time passou a acreditar sempre que pode ganhar, com uma resiliência e sangue frio que ficaram evidentes durante a pressão sofrida contra o Bayern, no primeiro tempo da partida da volta. Aguentar, acreditar e reagir.

Essa aura de confiança que emana do vestiário do clube começa com seu comandante, que rege a arquibancada ensandecida do Vicente Calderón como um maestro e sua orquestra.

Com uma fórmula que mistura motivação, entrega e sacrifício com uma disciplina tática quase militar e um preparo físico de atleta olímpico, o Atlético de Madrid de Simeone está mostrando ao mundo que um clube de futebol pode ganhar funcionando de maneira diferente à estabelecida pelos gigantes que o rodeiam da elite europeia.

Como não pode competir com os orçamentos três, quatro ou até cinco vezes maiores, o clube madrilenho decidiu focar numa estratégia agressiva de contratações de jogadores jovens e emergentes e num projeto em curto prazo. Temporada a temporada, “partido a partido”, frase que o Cholo Simeone repete como um mantra em todas suas entrevistas.

Comprar na baixa, vender na alta e voltar a investir no mesmo modelo.

Agüero, Forlán, Radamel Falcão, Diego Costa, De Gea, Courtois, Arda Turan, Miranda.

Jogadores que em seu momento foram chave para o time, mas que cujas saídas foram esquecidas em seguida pela chegada de um novo talento que, geralmente, acaba se adaptando rápido graças ao bloco sólido formado pelos jogadores que vieram da base.

Se no começo, sobressaía a motivação e a garra, hoje ela já fica em segundo plano graças a um modelo tático onde todos defendem e atacam juntos, levando ao pé da letra o modelo de futebol total. Na defesa, os dois homens de frente pressionam a saída de bola com a mesma entrega de um volante. E o resto do time forma duas linhas de quatro tão sólidas e disciplinadas que são praticamente intransponíveis.

A posse de bola não é importante. O Atlético passou pelo Barcelona e Bayern com média inferior a 25% nesse quesito.

O importante é não desperdiçar as chances com a bola no pé.

O objetivo é roubar a bola e sair em velocidade, com passes curtos ou rasteiros em profundidade, explorando o perfil de seus atacantes: jogadores de baixa estatura, técnicos, ágeis, rápidos e agressivos.

Um sistema defensivo, mas que por princípios não pode ser violento. A falta acaba com essa vantagem de sair no contra-ataque contra um rival descolocado.

Contra a enorme pressão do Bayern, no primeiro tempo em Munique, o time de Simeone fez apenas três faltas.

Essa receita faz do Atlético o time mais efetivo da Europa.

Estratégia de contratações. Fator motivacional. Preparo físico. Aplicação e disciplina tática. Pressão da arquibancada.

São tantos os fatores que, somados, fazem desse Atlético uma aberração que nos últimos três anos consegue brigar de igual pra igual com a elite europeia dominada por gigantes históricos milionários e clubes emergentes anabolizados com petrodólares.

Por isso é difícil ver o modelo colchonero replicado em outro clube europeu. Ou até mesmo Simeone conseguindo implementá-lo em um clube maior ou com mais recursos.

No Atlético, o argentino é um dos técnicos mais bem pagos do mundo, com um salário na casa dos 25 milhões de reais anuais. Tem poder absoluto no clube e é adorado pela torcida. As vitórias trazem prestigio e crescimento e, no ano que vem, o time inaugura o novo estádio, que promete ser um dos mais modernos do mundo. Tudo isso, numa das capitais europeias com melhor clima e qualidade de vida.

Por isso todos os rumores que surgem sobre interesses de outros clubes são abafados imediatamente pelo próprio entorno do treinador. Profissionalmente, ele parece ser consciente de que seu projeto no clube madrilenho seria difícil de colocar em prática em outro clube. Pessoalmente, ele vê no Atlético sua imagem e semelhança. Sua ideia de como o futebol deve ser. Em campo e na arquibancada.

Quem o conhece não o vê em um Chelsea, PSG ou Manchester United. Talvez na Inter de Milão, onde também foi ídolo, mas não nesse momento.

Simeone não quer apenas fazer história.

Ele quer fazer história no Atlético de Madrid.

E durante muitos anos.

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