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Fred, do Shakhtar: "O Brasil tem os seus problemas, mas nada se compara a uma guerra"

Fredkiev

Conversei com Fred, estrela do Shakhtar Donetsk, para tentar entender como é a vida de um jogador que mora num país em guerra. A entrevista foi publicada em espanhol na edição impressa do AS na quarta-feira 15 de fevereiro, mas abaixo você pode ler na íntegra esse bate-papo em português.

O Shakhtar tem a melhor campanha e melhor ataque da Europa League e líder isolado do campeonato ucraniano. Um feito impressionante levando em conta tudo que o clube teve que passar por causa da guerra. Qual é o segredo para conseguir jogar em alto nível mesmo sob tanta pressão?

Acredito que pelo ambiente que foi criado no elenco. Os jogadores são amigos, é uma família mesmo. Muitos já estão aqui há muito tempo, temos uma base forte de alguns anos. E essa questão da guerra fez o grupo se aproximar ainda mais. Temos muitos brasileiros e outros estrangeiros no time, e essa distância de casa, toda a preocupação pelo que aconteceu, fez todos se unirem ainda mais.

Como tem sido a vida no dia a dia de um país que está em guerra?

No começo foi bem difícil, claro. Tivemos que deixar a nossa cidade, Donetsk, sem nem sequer poder retornar para nossas casas, porque estávamos viajando quando aconteceu. Até nosso estádio foi atingido. Foi tudo muito complicado. Não sabíamos ao certo o que iria acontecer depois. Mas, graças ao clube, que nos deu uma estabilidade incrível e nos ajudou muito, conseguimos superar com o tempo. Hoje, em Kiev, as coisas são mais tranquilas.

O Shakhtar foi obrigado a deixar Donetsk por causa da guerra. Como foi ter que deixar tudo para trás?

Como falei, o clube nos deu todo o suporte. Nossa cabeça voltou a ficar focada em apenas jogar futebol. Um funcionário do Shakhtar foi quem ainda fez algumas viagens para Donetsk e ainda conseguiu recuperar muita coisa que tínhamos deixado pra trás, sem nada poder fazer na época. Existia medo no início, claro, nossas famílias preocupadas, mas o tempo curou as feridas. A vida tem que seguir.

É difícil se concentrar em simplesmente jogar futebol em um país que vive uma crise como esta?

O Shakhtar tem um grupo de muita experiência e maturidade, a maioria dos jogadores são rodados. Claro que ninguém espera passar por isso e, na verdade, nem estamos preparados, para falar a verdade. Nós, brasileiros, por exemplo, não estamos acostumados com guerras. O Brasil tem os seus problemas, claro, mas acho que nada se compara a uma guerra. Mais uma vez, é preciso ressaltar o trabalho que foi feito pelo clube para nos dar toda a tranquilidade para poder viver e trabalhar.


O clube fez algum trabalho especial na parte psicológica dos jogadores por causa da guerra e da mudança pra Kiev?

O maior problema, mesmo, foi ter que mudar de cidade, não estar no nosso próprio estádio, ficar longe dos nossos torcedores e ter que viajar para jogar todas as partidas, seja ela em casa ou fora. E isso é um obstáculo a mais pra gente. Mas nos adaptamos. Tanto que fizemos uma boa temporada no ano passado e estamos muito bem nas competições que disputamos. Sabemos que é complicado, mas temos que saber levar.

Pensou em algum momento em deixar a Ucrânia?

No começo, pensava muito nisso. É estranho demais estar numa guerra, não saber ao certo o que fazer e o que vai acontecer. Existia o medo e é normal qualquer um pensar em abandonar o clube. Não pela instituição, claro que não, mas pelas circunstâncias. Mas nos deram toda a assistência e conseguimos refazer a nossa vida em Kiev. E o pensamento de um tempo pra cá já não é mais aquele. A vida está tranquila.

O vestiário sentiu a mudança nos primeiros meses? Como foi essa adaptação a Kiev? A um novo estádio, novo centro de treinamento, nova casa...

Não ter estádio para jogar e os nossos torcedores ao nosso lado, aqueles que compareciam a todos os jogos, é uma situação que incomoda. Mas não tínhamos o que fazer, era preciso sair de Donetsk. Foi um baque nas primeiras semanas, mas nos adaptamos. O grupo até se uniu ainda mais por isso. Tivemos que nos sacrificar, mas continuamos fazendo bons jogos.

O que foi mais difícil? A primeira adaptação a um país tão distante e com uma cultura tão diferente ou à mudança à Kiev pela guerra.

Achei até que fosse ter mais dificuldades de adaptação quando cheguei, até por ter sido a primeira vez que saí para jogar num clube europeu. E também por ser em um país que não fica em um dos grandes centros da Europa. Mas, por ter muitos jogadores brasileiros no elenco, todos me ajudaram bastante e as coisas foram acontecendo naturalmente. E é claro que, por se tratar de uma guerra, foi muito mais difícil de encarar, até pela preocupação que causou em todos os parentes e amigos no Brasil, que ficaram por dias atrás de notícias. Estávamos viajando para jogar e nem pudemos retornar para nossas casas. Até nosso estádio foi atingido. Muito triste.

Vocês passaram esse período de concentração de inverno aqui na Espanha e em Portugal. Ajuda estar um tempo fora do país para se concentrar puramente no futebol?

É um dos períodos do ano que temos para nos prepararmos da melhor possível para a temporada que se inicia. Essa, no caso, é a que recomeça. É válido, sim, deixarmos um pouco o dia a dia que vivemos, com a vida mais privada e regrada, para nos dedicarmos 100% ao trabalho. Isso é muito importante e faz diferença. E já faz parte da cultura dos clubes europeus, o que acontece pouco no Brasil, por exemplo. A realização de vários amistosos de preparação, contra equipes de outros países, é um diferencial também.

Você teve que superar também uma barreira pessoal, depois de ficar um ano afastado dos gramados depois do caso de doping na Copa América de 2015. O que você aprendeu nesse período que esteve sem jogar?

Foi tudo uma surpresa pra mim. Contratei os melhores profissionais para resolverem essa que é, sem dúvida, uma situação complexa, mas que, com o meu histórico profissional, vai ficar para trás das conquistas que estão por vir. Obviamente, não me dopei. Infelizmente, foi encontrada uma substância proibida no meu organismo e fui punido. Cumpri a suspensão e, graças a Deus, voltei a fazer o que sei, que é jogar futebol. E jogador tem que se preocupar apenas com isso. Já faz parte do passado, mas é claro que temos que tirar lições de tudo o que vivemos, principalmente das coisas ruins, para que não ocorram novamente. Mas estou com a consciência tranquila porque sei que eu não fiz nada de errado. Mas foi um período em que pude ficar até mais próximo da minha família e dos amigos. E só tenho a agradecer a todos eles pelo apoio que me deram.

Como um atleta mantém a concentração durante tanto tempo sem poder competir? De onde vem a motivação de seguir treinando?

Justamente por saber que não fiz nada de errado, que fui pego de surpresa, e por todo apoio que recebi. É muito difícil ser privado de exercer a sua profissão, o que você mais gosta de fazer, e num momento tão bom da carreira. Estava na seleção principal, disputando uma competição grande como a Copa América. Mas nunca desisti, por acreditar em mim e no que sempre quis para a minha vida. Não seria isso que me tiraria do rumo.

Antes da suspensão, você estava na seleção brasileira e no radar de vários grandes clubes da Europa como a Juventus, o Barcelona e o Real Madrid. O que você acha que tem que fazer para voltar à seleção e a despertar o interesse que um dia existiu por você nos times de elite?

Voltar à seleção e despertar o interesse de outros grandes depende apenas do bom trabalho que realizamos no clube. E é o que busco fazer todos os dias. Encaro os treinos da mesma maneira que encaro os jogos. Levo tudo muito a sério. E tenho certeza de que, se continuar assim, outras chances surgirão. E estou num clube que vem ganhando cada vez mais visibilidade na Europa, sempre conquistando títulos e disputando as principais competições do continente. E sei que o Tite está olhando por todos. O Taison mesmo, meu parceiro de clube, já foi convocado por ele.

Acredita que hoje a cobrança é ainda maior do que antes?

Não vejo dessa maneira. Acho que a cobrança sempre foi e sempre será grande pela confiança que as pessoas depositam no seu futebol. Quando não existir mais essa cobrança, alguma coisa está errada.

Te motiva saber que essa cobrança existe? Que talvez os grandes clubes europeus e o treinador da seleção serão ainda mais exigentes com você?

Se é em relação ao que aconteceu comigo, acredito que não. Como disse, a cobrança sempre existiu por saberem o que eu posso render, o que eu posso dar para minha equipe. E eu me cobro muito também. Quem me conhece sabe bem que sou muito dedicado, que sempre procurei fazer as coisas certas e não sair da linha. Mas a vida tem que seguir. Só tenho que pensar no que está por vir e continuar fazendo o que sempre procurei fazer, que é seguir no caminho certo.

Qual é a importância de um jogo como esse, de fase eliminatória em uma competição europeia, para um jogador que está em uma liga distante e sonha em chegar a um grande clube da Espanha, Alemanha, Itália ou Inglaterra? Existe uma motivação maior para talvez seguir os passos de outros brasileiros que saíram do Shakhtar e hoje triunfam por aqui como Fernandinho ou Douglas Costa?

Temos a total consciência de que é um jogo muito importante. Sabemos das dificuldades e da importância desse primeiro jogo contra o Celta, ainda mais por ser fora de casa. Mas todos os jogadores querem atuar em clubes grandes e pensam alto. E a Europa League e a Champions League são muito bem vistas, não só por nós brasileiros. O Ucraniano também, mas jogar as ligas europeias é diferente, o mundo inteiro está de olho. Temos que buscar vencer a partida, o que nos dará ainda mais visibilidade. Vivemos um grande momento na Liga, estamos com 100% de aproveitamento, mas agora a fase é outra e não podemos perder o foco.

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